A Gruta do Jardim Público

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Gruta do Leão abandonada e servindo de urinol

A Gruta do Leão, localizada no Jardim Público, entre as avenidas um e dois, ruas três e quatro (quadrante da rua quatro com a avenida dois), não conta com registros oficiais sobre a sua construção e data, autor da obra, nem mesmo documentação fotográfica. Mas há descrição nos arquivos históricos: “Construída num nível mais baixo que o da calçada, descia-se a ela por uma escada de alguns degraus. No seu interior há um Leão de pedra (ou mármore), e podia-se andar ao redor dele”.
Existe a probabilidade de ter sido construída por volta de 1888, servindo de ornamentação para o Jardim Público (já que, à época, era moda este tipo de construção, exibindo animais exóticos vistos somente em Circos, dificilmente apresentados em cidades do interior), inaugurado em 02 de dezembro deste mesmo ano.
Em 1900–1901, o Jardim foi remodelado, inserindo-se outra quadra, ampliado o limite até a avenida três, cercado por grades de ferro (não se descartando a hipótese de ter sido a Gruta construída naquela reforma).
Durante a administração municipal de Irineu Penteado, no ano de 1924, a Gruta foi soterrada. Medida que, segundo o relato de pessoas moradoras da cidade, por “ouvir dizer” de seus antepassados, fora adotada porque o local se tornara refúgio de desocupados; já tendo sido dito que o Leão provocava medo nas crianças. É desconhecido o motivo da mutilação da estátua antes do soterramento (quem sabe, para impedir que fosse desenterrado e furtado o símbolo presente em nosso Brasão e Bandeira).
A primeira prospecção para se localizar o canteiro da Gruta no Jardim Público foi realizada em 1990, na administração do Prefeito Azil Brochini, através do Conselheiro do Arquivo, Fernando Cilento Fittipaldi, e da grande incentivadora das pesquisas, a Arquivista Maria Antônia Gardenal Molon.
Com as escavações da Gruta, iniciadas a partir de junho de 1996 (precisamente no dia treze), foram desenterradas diversas estruturas; escadaria; bases de pilares; ornamentações (como tronco de árvore em cimento, possível imitação de Eucalípto), etc… No seu interior, de aproximadamente quatro metros de comprimento por três de largura, todo decorado por estalactites e piso de pedras, foram encontrados vários fragmentos da esfinge do Leão em terracota, cor azul (com feições humanas, face e patas intactas), a cauda esculpida no fundo da Gruta, em alto-relevo, defronte a uma drenagem. Foram lá encontrados, dentre muitas latas enferrujadas, objetos decorativos (cimento, ferro, cobre, etc…) e onze (ou doze) pinhas de ferro (as principais, em forma de romãs), remanescentes da antiga grade que cercava o Jardim Público, além de conchas de gastrópode terrestre e material vegetal (analisado pelo Departamento de Botânica da UNESP). No em torno, havia centenas de objetos, tais como, cacos de porcelana e louças, vidros, plásticos diversos, brinquedos, moedas (uma do Império), antigo cachimbo de barro, ninhos de aves (barro), santos, penas de canetas, muita tampa de leite, em alumínio… Testemunhos de diversas atividades em décadas distintas.
Infelizmente, porque complexas as pesquisas não puderam ser concluídas até o final de 1996. Desde então, relegou-se ao abandono tão importante Projeto Histórico – Cultural (ainda que o movimento “Opinião Popular para Recuperação da Gruta” tivesse coletado assinaturas e justificativas de rioclarenses favoráveis à recuperação da Gruta do Leão).
No segundo semestre de 1997, o Prof. Kal Machado, que acompanhou os trabalhos de desenterramento da Gruta, para impulsionar a sua restauração, ofereceu-se para custear uma réplica do Leão (consultados, por indicação da restauradora, Profa. Olga C. Faneco, dois escultores piracicabanos enviaram orçamentos; pensou-se até em obra de aço inoxidável, do artista L. Bittencourt, mesmo autor do Leão de “inox” que se encontrava à esquerda da entrada da escola Asser – Rua 7, Av. 2). Também foi elaborado orçamento de portão de ferro para a entrada da Gruta, no valor de R$ 200,00 (duzentos reais), remetido ao Departamento de Parques e Jardins, que preferiu emparedá-la.
A última tentativa de preservação (também fracassada), foi em 1999, quando a Câmara Municipal de Rio Claro, em votação unânime dos Vereadores, solicitou ao Poder Executivo, “providências na recuperação da Gruta, pois se trata de Patrimônio Histórico pertencente à comunidade rioclarense situado no principal ponto turístico da cidade”.
Em meados de 2000, com a realização de obras para a construção de “caixas de força” no Jardim Público, novas estruturas foram descobertas no entorno da Gruta, possível área de passeio ou lazer com espelho d’água.
Atualmente, exalando desagradável e intenso odor, sem paisagismo e iluminação, a Gruta encontra-se com as estruturas parcialmente soterradas, uma vez que não há manutenção do local; a sujeira espalha-se. A porta de entrada foi fechada com tijolos de cimento, havendo a retirada da armação de ferro original, de estruturas em alvenaria de tijolos e pedra… Descaracterizada, vilanamente, obra artística valiosa, com mais de cem anos. Desse modo, o escoamento das águas das chuvas ficou interrompido, comprometendo a sua estrutura principal (“cúpula”), ocasionando obviamente, trezenas de infiltrações e bolores.
Resta-nos, pois, a esta altura, esperar que a Gruta do Leão, tombada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (CONDEPHAAT), “aguente firme”, até que se resolva levar a cabo o Projeto original. Assim devemos à história de Rio Claro.

Cabeça do leão sobre tronco de árvore ornamental à entrada da gruta
Cabeça do leão sobre tronco de árvore ornamental à entrada da gruta
Escoamento das águas das chuvas soterrado
Escoamento das águas das chuvas soterrado
Desenterramento da entrada da Gruta do Leão
Desenterramento da entrada da Gruta do Leão
Interior da gruta decorada por estalactites vendo-se Paulo Rodrigues e Ricardo Lopes
Interior da gruta decorada por estalactites vendo-se Paulo Rodrigues e Ricardo Lopes
Esfinge do leão fragmentada exposta no saguão da Prefeitura Municipal
Esfinge do leão fragmentada exposta no saguão da Prefeitura Municipal
Paisagem desoladora da Gruta do Leão
Paisagem desoladora da Gruta do Leão

Anselmo Ap. Selingardi Jr.
Perito Judicial em Arqueologia e Documentação Histórica
Inscrição: N. 1417 SP

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