Gestão preventiva

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Senador pelo PPS-DF e professor emérito da Universidade de Brasília (UnB)
Muitas vezes, os problemas persistem porque são enfrentados com as perguntas erradas. Em 1995, o governo do Distrito Federal herdou uma crise na saúde por falta de leitos para atender os doentes que chegavam aos hospitais. No no lugar da pergunta tradicional de como construir novos hospitais, o novo governo inseriu a questão como diminuir o número de doentes que chegavam a eles. Se o propósito era oferecer leitos para quem precisasse, no lugar de ofertar mais novos leitos, a alternativa era reduzir a demanda por leitos existentes.
Percebeu-se que uma parte dos doentes chegavam por causa de acidentes de trânsito. Nos fins de semana, os hospitais, especialmente o setor de politraumatizados, recebiam tantos pacientes que os corredores eram usados como local de atendimento. Uma solução seria redução no número de acidentes de trânsito. Essa era uma opção com gestão mais difícil do que a simples construção de novas alas e hospitais. E não era a solução preferida da população, ansiosa por novos hospitais nem de empreiteiras e fornecedores de equipamentos, nem dos políticos acostumados com inaugurações e placas comemorativas. Mas foi o caminho escolhido. Por meio de uma radical campanha de Paz no trânsito, que incluiu o respeito à faixa de pedestre como o coroamento da pacificação, foi possível em pouco tempo, menos do que o necessário para construir hospitais, começar a sobrar leitos. Onde, às segundas-feiras, havia doentes espalhados nos corredores, o DF passou a ter leitos livres, graças à inversão nos propósitos da gestão.
A segunda causa da superpopulação nos hospitais era devido à falta de médicos. Com a liderança da secretária de Saúde Maria José (Maninha), o Programa Saúde em Casa fez com que, em vez de pessoas com doenças simples irem a um hospital, elas passassem a buscar atendimento perto de casa ou receber a visita do médico em sua residência. Mais uma vez, no lugar de perguntar como fazer hospitais, perguntou-se como atender os doentes antes de eles buscarem atendimento hospitalar.
Essa estratégia serve para muitos outros problemas. Viadutos não resolvem o problema do trânsito. A pergunta não deve ser como facilitar o trânsito do número crescente de veículos privados, mas como diminuir a necessidade deles para atender o bem-estar da população, e a solução está no transporte público de boa qualidade com conforto, eficiência, pontualidade, baixo custo.
Lamentavelmente, para atender a interesses de grupos e à mentalidade tradicional, a política brasileira resiste a uma gestão inversa, mudando as perguntas. Um exemplo é como enfrentar o problema da superlotação dos presídios devido ao crescimento da criminalidade. A resposta tem sido construir mais cadeias no lugar de como diminuir a criminalidade e, com isso, o número de presos.
Da mesma maneira que mais viadutos e mais hospitais não resolvem o problema do trânsito ou da saúde, mais cadeias não resolvem o problema da falta de prisão. Porque a velocidade com que se constroem cadeias será menor do que aquela com a qual produzimos bandidos. A pergunta deve ser como reduzir o número de criminosos, e não como aumentar o número de celas. Dentro dessa mesma filosofia, o governo do Distrito Federal praticamente universalizou o serviço de água potável e esgoto em todas as casas das pequenas cidades. Saúde em casa, Paz no trânsito, e universalização de saneamento fizeram pelo atendimento médico eficiente o que dezenas de hospitais não conseguiriam. A inversão de propósito da gestão exige mudança de filosofia, muita competência gerencial, mas deixa resultados muito mais eficientes. Não há como enfrentar zika, chicungunha, febre amarela em hospitais e postos de saúde como se está tentando, mas, sim, com vacinas e saneamento. A destruição do programa Saúde em Casa, pelo governo, em 1999, e o caos consequente é prova de que a gestão preventiva, embora exija mais competência de gestão, é o caminho certo.
A resposta para o problema da superpopulação presidiária está em reduzir a criminalidade. Isso pode ser feito por meio da educação: a formação de nossa juventude com escola de qualidade para todos, independentemente da renda e do endereço da família. Essa é também a solução permanente para todos nossos problemas atuais: violência urbana, baixa produtividade, pobreza, desigualdade, corrupção. Por trás de cada um deles, há uma crise moral, não apenas técnica; de educação, não apenas de engenharia, exigindo uma gestão preventiva, não corretiva. Como o DF praticou no período 1995/1998.

Cristovam Buarque é senador (PPS-DF)

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