FILÓSOFO BAUMAN DEIXA IMPORTANTE LEGADO

403

Por Geraldo J. Costa Jr.
A riqueza de poucos beneficia a todos nós? Esta talvez tenha sido uma das mais impertinentes questões lançadas por um filósofo nas últimas décadas. Num lance de ousadia e provocação ainda maiores caberiam duas respostas. A primeira delas é sim, afinal, da riqueza restrita a poucos resultariam melhores e mais duradouros benefícios para todos. E a segunda é não, na medida em que seria muito mais fácil que todos tivessem o suficiente para se sentirem satisfeitos e a ninguém seria dado a oportunidade ou o privilégio de se sentir mais e melhor que o seu semelhante. Qualquer das situações propostas, porém, demandaria uma sociedade moralmente avançada, o que se parece uma realidade um tanto distante.
O autor da pergunta impertinente faleceu no último dia 9, aos 91 anos de idade. Seu nome: Zygmunt Bauman. Polonês, filósofo, professor universitário, autor de dezenas de livros, Bauman elaborou a teoria da Modernidade Líquida, segundo a qual, tudo o que consistente se dilui, assim, os acordos estabelecidos na sociedade humana seriam, segundo ele, temporários e com prazo de validade.
Bauman abdicou de uma linguagem hermética característica da maioria dos filósofos para tratar de temas profundos do interesse humano de um modo ao alcance de todos. Por isso, foi considerado superficial por alguns críticos. Bauman também desconfiava que a riqueza de poucos beneficiasse a todos nós. No livro que trata sobre o assunto, ele aborda as atuais consequências do triunfante neoliberalismo na sociedade capitalista dos anos 80.
Em relação às redes sociais, entendia que a sociedade tornara-se hábil em eliminar a fronteira que antes separava o privado e o público, para transformar o ato de expor publicamente o privado numa virtude e num dever público.
Considerado um filósofo pessimista, para Bauman qualquer procura existencial e principalmente a busca da dignidade da autoestima e da felicidade, exigiria a mediação do mercado. Bauman refletia que numa sociedade de consumo a vida sem possibilidade de escolhas pareceria insuportável para os pobres.
Para o profeta da pós-modernidade, o armazenamento de tecnologias digitais, desobrigaria os indivíduos a cultivar qualquer tipo de memória. Um indivíduo sem memória, contudo, torna-se isento de responsabilidades morais.
O filósofo brasileiro Luiz Felipe Pondé afirma que Bauman será sempre uma referência essencial para entendermos a tragédia banal da modernidade.
Em tempos de “Amor Líquido” (título de um de seus livros), a morte de um filósofo como Bauman, embora alcance significativa repercussão nos meios intelectuais não gera comoção na sociedade, como por exemplo, a de um esportista famoso. Coerente, se pensarmos a importância quase nula destinada a filósofos, por uma sociedade com interesses voltados para o superficial, o banal, o transitório e onde predominam as frágeis relações humanas baseadas, sobretudo no ter em detrimento do ser.
O colaborador é escritor
jcostajr2009@gmail.com

COMPARTILHAR

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA