VIDA PRIVADA E VIDA PÚBLICA

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GAUDÊNCIO TORQUATO
              “O estadista deve trazer o coração na cabeça.” A frase de John Kennedy, o mais querido presidente dos EUA, possivelmente explique por que sua vida íntima foi cercada de mistérios e boatos, abrigando um relacionamento com o mais famoso símbolo da sensualidade feminina no cinema, Marilyn Monroe. Guiar-se pela razão tem sido desafio dos mais instigantes para todos os que militam na vida pública, sendo raros os que conseguem atravessar os longos corredores do poder sem cair nas armadilhas da vida privada. Estas marcam de maneira indelével o seu perfil. Lembremos o affaire envolvendo o presidente Bill Clinton e a estagiária Monica Lewinsky, no gabinete anexo ao famoso Salão Oval da Casa Branca, símbolo máximo do poder norte-americano. E, mais recentemente, as conversas de Estado feitas pela candidata democrata à presidência dos Estados Unidos, Hillary Clinton, usando seu e-mail pessoal. Esse foi seguramente um dos fatores responsáveis por sua derrota.
Em nossa memória, ainda é forte a imagem do ex-governador Sérgio Cabral, em um hotel chique de Paris, comemorando com amigos o aniversário de sua mulher, a advogada Adriana Ancelmo, cuja vida passou a ser vasculhada pelos órgãos de controle e pela mídia. Ambos são objeto de investigação. A fotografia de Cabral, de camiseta verde de presidiário em Bangu, no Rio, junta-se à imagem de guardanapos enfeitando as cabeças do grupo dançante em Paris. Olhem-se para as fotos dos polêmicos imóveis (sítio em Atibaia e duplex no Guarujá), cuja propriedade é atribuída a Lula, para se concluir que a vida privada acaba criando impacto sobre a vida pública de protagonistas da política.
VIDA PRIVADA E INTERESSE SOCIAL
A deterioração da imagem de atores políticos por eventos escandalosos tem sido comum no ciclo de fosforescência midiática em que vivemos. A questão é: a vida privada do homem público deve ser objeto de interesse social? Resposta inapelável: sim. O homem público tem o dever de compatibilizar a vida privada e a pública, na medida em que ambas são forjadas por valores e princípios que expressam seu caráter. A Constituição expressa serem invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas. É inquestionável tal pletora de direitos. Mas estes devem ser exercidos para garantir a cidadania.
Uma coisa é o ato particular, que ocorre no sagrado espaço do lar ou no ambiente pessoal de trabalho, outra é o evento privado que se desenvolve em território público. E mesmo em locais privados a conduta do homem público há de ser condizente com os valores republicanos e com preceitos éticos e morais da sociedade. Quando altas autoridades de uma nação são flagradas em situações torpes, despencam no ranking da credibilidade social. Passam a ser motivo de vergonha e chacota. Os pacotes de dinheiro, flagrados por pessoas em fuga, as gravações (sem cobertura legal) entre políticos e seus advogados, adereços e jóias (algumas de alto custo) acabam plasmando a imagem de interlocutores e acusados.
É bastante tênue, como se pode perceber, a linha divisória que separa o comportamento íntimo do ator político de sua vida pública. Na história dos governantes, alguns souberam tirar proveito (e fazer marketing) de situações privadas, principalmente por meio de gestos, atitudes e manifestações voltadas para conquistar a simpatia popular. Líderes que procuram “humanizar” a imagem são, em geral, aplaudidos e admirados, eis que despertam nas massas sentimentos de familiaridade, simplicidade e proximidade. Na França, o presidente Giscard d’Estaing costumava sair pelas ruas, participar de partidas de futebol, exibir-se em festivais de acordeão, visitar prisões, convidar varredores de rua para tomar café da manhã no Palácio Eliseu. Outros exageram nos gestos, resvalando, por conseguinte, pelo perigoso terreno da galhofa. Pierre Trudeau, pai do atual primeiro-ministro do Canadá, em recepção cerimoniosa, chegou a escorregar pelo corrimão de uma escada. Noutra feita, ocupou lugar na Câmara dos Comuns envergando camisa polo, paletó esporte e sandálias. Dessacralizar o poder, descer do Olimpo para a terra dos mortais, circular no meio do povo completam a bagagem de artifícios de governantes para atrair a simpatia da população. Tal sinalização contém alta taxa de demagogia.
CARISMA E REJEIÇÃO
Há, portanto, atos privados que são apreciados pela sociedade. E esta tolera certa liberdade de costumes e até uma dose de insolência. Mas o carisma do governante ajuda a aplainar arestas. Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, vale recordar, foram presidentes namoradores, o que não lhes corroeu a fama. Thomas Jefferson, um dos homens mais admirados dos EUA, protagonizou um “escândalo” amoroso, o caso com uma de suas escravas, Sally Hemings, que fora a Paris cuidar da filha mais velha do presidente, na época com 9 anos de idade. Já o político inglês John Profumo, que tinha o cargo equivalente ao de ministro da Guerra, um dos heróis do Dia D (desembarque aliado na Normandia durante a 2.ª Guerra Mundial), foi protagonista de um grande escândalo: o envolvimento com a modelo Christine Keeler, no começo dos anos 60.
A rejeição a comportamentos de governantes tem a ver com o espírito do tempo. Por aqui, a permissividade, particularmente no que concerne à apropriação do patrimônio da res publica, tem sido enorme, bastando ver os mais de R$ 6 bilhões roubados da Petrobras. Daí a onda ética e moral que se espraia pelo país sob o empuxo da República de Curitiba. Um sentimento de repúdio toma a alma de classes, grupos e setores. Respeito às leis, igualdade, consciência de direitos começam a ser parâmetros para avaliar o desempenho na vida pública. A comunidade passa a exigir mais rigor na política. Desvios de padrão são denunciados pelo universo abarcado na Operação Lava Jato. Só da Odebrecht serão 77 executivos a abrir o bico na “delação de fim do mundo”, como está sendo designada. Doravante, quem se arriscar a trilhar descaminhos afundará, inexoravelmente, no poço do descrédito.
Quem desejar galgar os degraus mais altos do poder, aprenda a lição de Kennedy: “guarde o coração na cabeça”.
    
  Gaudêncio Torquato, jornalista, professor titular da USP é consultor político e de comunicação. Twitter: @gaudtorquato  

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