O Crime das Irmãs Coelho

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Antigo prédio da Cadeia e Câmara Municipal (foto/arte: Rosângela Camargo, acervo Museu HP)

O prédio da Cadeia e Câmara Municipal localizava-se na avenida cinco defronte à Praça da Liberdade, em terreno de 1936m² (antiga Rua Alegre; Largo da Matriz Velha, demolido em 1965, para abrigar o atual Fórum “Desembargador Paulo Colombo de Queiroz”).
Em meados de 1870, aquela área, que pertencia a Francisco Gomes Botão e a Antonio Barboza Pereira, foi encampada pela Municipalidade. Construído o prédio, no andar superior funcionou a Câmara e no inferior, a Cadeia.    
As obras foram custeadas pela Província, na figura do então Presidente Dr. Antonio Cândido da Rocha, que remeteu seis contos de réis (6:000$000) à Câmara Municipal, verba solicitada pelo primeiro Barão de Araraquara, José Estanisláo de Oliveira (futuro Visconde do Rio Claro).
Nesse antigo edifício ocorreu um crime passional que abalou a sociedade rio-clarense da época.
Em 14 de janeiro de 1930, encontrava-se na sala do Fórum, já no andar superior do prédio, o Dr. José Rodrigues Simões (31 anos, Advogado) para ser ouvido na ação de desquite que lhe movia sua esposa, D. Maria Amélia Dias Coelho (33 anos, dona de casa, três filhos). A autora trajava vestido de seda azul-marinho, meias da mesma fazenda, colar de pérolas, brincos e anel de brilhantes, outro anel de turmalina vermelha, além da aliança de ouro, sapatos e bolsa de pelica marrons; na cabeça, um lenço amarrava-lhe os cabelos pretos, “à la garçonne”.
D. Maria Amélia era acompanhada por sua irmã, D. Elisa (27 anos, corpo atlético, reconhecida como exímia atiradora), e o marido, pelo pai, Sr. Manoel Rodrigues Junior (61 anos, português de Funchal, há onze anos no Brasil, comerciante). Na sala de audiências, após ser ouvido, o Dr. Simões, atendendo o chamado do pai, seguiu-o até a porta da sala contígua, onde se encontravam as irmãs Coelho. Subitamente, o Dr. Simões foi em direção à esposa, que se esquivou, temerosa de qualquer agressão (não a via desde agosto de 1929, quando ela deixara o lar conjugal com os filhos, devido aos maus-tratos do marido e do sogro; ao buscá-la na casa dos pais, em calorosa discussão, ouvira de D. Amélia “que não voltaria jamais… que não tinha medo… iria aprender a atirar como sua irmã… e depois mostraria”…). Agarrando-a com a mão esquerda, disse-lhe: “então Amélia você quer mesmo desquitar-se de mim?” Sem obter resposta, dirigiu o olhar para a cunhada, que tirava um revólver da bolsa (marca “Detective”, de origem espanhola, calibre 32) para defender a irmã. Enquanto gritava que atirasse, com a mão direita o Dr. Simões, sacando uma arma (“Smith & Wesson”, 32), desferiu cinco tiros na esposa, à queima-roupa. Ao vê-la caída entre o corredor e a entrada da sala de audiências, já morta, envolta em sangue, o marido exclamou: “está vendo, Amélia, a desgraça que você me fez fazer!”. Nesse ínterim, D. Elisa foi dominada pelo Sr. Manoel (que também portava um “Smith” 32), antes que atirasse no cunhado. O Dr. Simões, vendo os dois em luta, arrebatou o revólver de D. Elisa e, imobilizando-a, com o pé em sua garganta, alvejou-a com um tiro na cabeça. Logo após o acontecido, pai e filho, empunhando os revólveres, desceram a escadaria do prédio; no “hall” da Cadeia, em direção à entrada, e atravessaram uma multidão de pessoas, ao som “pega-pega”. Rumando para a Igreja Matriz, adentraram pela porta lateral esquerda, refugiando-se na sacristia. Questionados pelo sacristão João Bütner, solicitou-lhe o Dr. Simões que fosse chamar a autoridade policial e o Monsenhor Botti. Com a chegada dos soldados, empurrada a porta, pai e filho entregaram-se sem nenhuma resistência e, desarmados, foram presos e conduzidos à Cadeia em meio aos populares.
Levada à Santa Casa de Misericórdia, com perfuração do pulmão, D. Elisa não resistiu aos ferimentos. Relatou um dos médicos que, ainda consciente, revelara: “não pude usar a arma porque fui logo segura por Manoel Rodrigues Junior, que me impediu de atirar.”
Os advogados dos réus requereram o desaforamento do processo para a Comarca de Campinas. Transferidos pai e filho para aquela cidade, o Sr. Manoel foi condenado pelo Júri a “80 anos de prisão cellular”, como coautor dos crimes; adiado o julgamento do Dr. Simões, após deferida a separação dos processos pelo MM. Juiz de Direito Nelson de Noronha Gustavo, sem oposição do assistente da acusação, Dr. Antonio Augusto Covello, que empolgou a audiência com sua eloquência.
Interposto recurso à Egrégia Corte de Apelação, os réus, em novo julgamento foram condenados a trinta anos de prisão. Levado pela terceira vez a julgamento, o Sr. Manoel foi absolvido por unanimidade, e seu filho teve declarado nulo o julgamento em Habeas Corpus (como tutores dos filhos do réu, os pais das vítimas não poderiam ter sidos autores da queixa-crime).
 Conta-se que, posteriormente condenado, o Dr. Simões cumpriu a pena na forma da lei, com bom comportamento. Ao deixar a prisão, solicitou a guarda dos filhos, ocasionando profunda consternação nos avós.

 

Cortejo fúnebre das irmãs Coelho ao longo da avenida cinco (foto: acervo Museu HP)   
Cortejo fúnebre das irmãs Coelho ao longo da avenida cinco (foto: acervo Museu HP)

 
                                                               Anselmo Ap. Selingardi Jr.
                                       Perito Judicial em Arqueologia e Documentação Histórica
                                                                Inscrição: N. 1417 SP

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