COLUNA IGREJA EM COMUNICAÇÃO

A graça de Deus e nosso agradecimento

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Por Caio Arthur Borgi

A história de Eliseu e Naamã, tema da 1ª leitura de hoje, mereceria mais carinho do que a liturgia lhe consagra. De fato, o recorte litúrgico exige pelo menos uma pequena introdução narrativa, para pôr os ouvintes a par do que precedeu à entrada de Naamã na água do Jordão: como este estrangeiro criou a idéia de consultar um profeta de Israel e, sobretudo, como ele queria montar o espetáculo, levando ricos presentes (2Rs 5,5).
Queria que Eliseu o curasse por sua palavra, mas Eliseu o mandou banhar-se no Jordão, para que ficasse claro que não era Eliseu quem curava, e sim, o Senhor de Israel e das águas do Jordão. O general, apertado, aprendeu a obedecer. Veio a hora de agradecer: novamente, Naamã oferece um presente digno de um príncipe.
Eliseu recusa, pois quem agiu foi Deus! Então vem o comovente fim da história: curado, não só de sua lepra, mas de seu orgulho de militar, Naamã pede para levar à Síria um pouco de terra de Israel, para adorar, na Síria, o Deus de Israel no seu próprio chão. Além disso, pede antecipadamente perdão porque, como funcionário real, terá que adorar de vez em quando o deus sírio Remon; e Eliseu responde: “Pode fazer tranqüilamente”…
As lições desta história são diversas. Aparece a gratuidade do agir de Deus: nem presentes, nem ordens o movem, mas a ingênua confiança que se esconde por trás das manias militarescas de Naamã. A humildade do profeta, que só quer que Deus apareça. A comovente gratidão do sírio. A abertura de espírito do profeta quanto às obrigações religiosas do sírio. O fato de ele ser estrangeiro: Deus “não tinha obrigações” para com ele.
O evangelho lembra esta história sob vários aspectos. Trata-se de lepra. Dez leprosos são curados, não imediatamente (cf. Naamã), mas somente depois de ter mostrado uma confiança inicial, tomando o caminho para se mostrar aos sacerdotes. Porém, quanto ao tema da gratidão, somos mais chocados que comovidos: só um dos dez volta para agradecer. Por sinal, um estrangeiro, samaritano (cf. Naamã). Parece que a graça de Deus é melhor acolhida pelos estrangeiros. E é verdade, mesmo. Pois eles se sabem agraciados. Não têm privilégios. As pessoas da casa acham que tudo o que recebem é “por direito” e que, portanto, não precisam agradecer. Esquecem que tudo é graça. Acham que estão quites quando cumprem as prescrições: mostrar-se aos sacerdotes. São absorvidos por seu próprio sistema. Por isso, se diz que os piores cristãos moram o mais perto da Igreja: apropriam-se da religião e esquecem o extraordinário de tudo o que Deus faz.
Gratuidade do agir de Deus, gratidão por tudo o que Deus faz: tudo é graça. Estes seriam os temas de reflexão para hoje. E o dia indicado para ler o belo prefácio comum IV: agradecemos a Deus até o dom de O louvar! Também a oração do dia participa deste tema: a graça de Deus deve preceder e acompanhar nosso agir; devemos estar atentos ao bem que “podemos” fazer, isto é, que Deus nos dá para fazer, como um dom.
Graça, gratuidade, gratidão, agradecimento: é o momento de ensinar ao povo o parentesco, não apenas etimológico, mas vital, destas palavras. Na 2ª leitura, o testamento de Paulo chega ao mais alto grau de condensação: Paulo confia a seu cooperador, Timóteo, “seu evangelho”, o anúncio da ressurreição de
Cristo, que garante também nossa ressurreição, se ficarmos firmes na fé nesta palavra. As últimas frases formam um hino (2Tm 2,11-13). A palavra que é verdadeira nos ensina: se morrermos com Cristo, viveremos; se formos firmes, reinaremos com ele; se o renegarmos, ele nos renegará; – e agora vem uma quebra surpreendente nos paralelismos – se formos infiéis, ele será… fiel! pois não pode negar seu próprio ser! Esta 2ª leitura, que interrompe a unidade temática da 1ª e 3ª leituras, porém rica demais para ser suprimida, poderia ser um belo texto de meditação, depois da comunhão.

Caio Arthur Borgi é Radialista e membro da Assessoria de Comunicação da Diocese de Piracicaba .
Reflexão baseada na Liturgia Deste Domingo;
1ª Leitura: 2Rs 5,14-17
Sl 97
2ª Leitura: 2Tm 2,8-13
Evangelho: Lc 17, 11-19
Site : http://www.diocesedepiracicaba.org.br

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