A fina arte de puxar saco

Em sua árdua função de administrar conflitos e ponderar favorecimentos, a democracia tem na prática da bajulação importante instrumento de negociação.

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Com a evolução da política, longe de ser uma prática vexatória, o puxa-saquismo torna-se exigível para composições e acertos que viabilizam a paz.

Assim, ganha perfil técnico o que Machado de Assis chamava de salamaleques ou discursos bajulatórios.

O jornalista Ênio Pasce, por exemplo, cunhou preciosa pérola ao ponderar que “em política, puxar o saco errado pode ser fatal”.

A bajulação vem diretamente ligada a favorecimentos, sem os quais a figura do político seria inútil. Alinhar-se ao governo para atender às bases eleitorais faz da política profissão de sucesso.

O mais antigo expediente de bajulação no País remonta a dom João VI. Instalada a Corte no Rio, ele instituiu o famoso “Beija-Mão”. Uma vez por semana, ele recebia de forma ultrademocrática nobres e populares que, ao longo da mesma fila, chegavam até o Regente para elegante bajulação acompanhada de um pedido de favor. As audiências hoje concedidas por governantes seguem tal modelo.

O puxa-saquismo ganha a atenção de especialistas, tendo em vista sua fundamentação e mesmo normatização. Para eles, o expediente merece ser qualificado para formatação instrumental, uma vez que alicerça a prática política.

Em seu livro “Você é muito gentil”, Richard Stengel, editor de política da revista Time, especialista em elogios, ensina alguns truques práticos que ajudam a exercer com requinte a arte da bajulação. Vale conferir.

Ele orienta.

Comece devagar – Estudos mostram que nós gostamos mais das pessoas que nos demonstram afeição gradualmente do que daquelas que nos adoram de cara.

Sorria ao fazer um elogio – Demonstre prazer ao elogiar. Assim será mais difícil ser descoberto. Você vai parecer mais sincero.

Seja específico – Não existe um elogio genérico, que vale para tudo. Portanto, esqueça fórmulas fáceis como “você é o melhor”. Vale mais elogiar a partir de situações pontuais como “adorei seu discurso sobre os investimentos na saúde na audiência de hoje”.

Saiba os limites da bajulação – Não vá além da conta em seus agrados, sob o risco de descambar para a mentira deslavada.

Nunca elogie e peça um favor ao mesmo tempo – Quando você faz um elogio, já deixa os outros em alerta. Engatar um pedido logo em seguida é uma heresia no código do bajulador profissional. Põe tudo a perder de imediato.

Nunca diga que alguém foi melhor do que você esperava – É o tipo de afirmação que sugere que a imagem anterior não era das melhores.

Exalte uma qualidade que realmente exista – Se você tem receio de exagerar no elogio, descubra qualidades que considera dignas de nota e aponte-as.

Não se esqueça de que pode aumentá-las um pouco.

Comparações são sempre bem-vindas – Diga a uma pessoa que ela é melhor do que alguém de quem ela gosta e respeita. Dá a sensação de que a constatação foi baseada na realidade. Assim como invejamos o status dos outros, gostamos de ser melhores que os vizinhos.

Misture um pouco de amargor com doçura – Sempre que possível faça críticas ou dê pequenas alfinetadas junto com um grande elogio. Torna-o mais legítimo e sincero.

Concorde, mas não com tudo – Implique com pelo menos um detalhe. Encontre algo trivial para discordar, e isso fará com que seu ponto de vista pareça genuíno.

Não deixe de bajular as pessoas que já bajuladas – Se elas estão cercadas de puxa-sacos, é porque precisam realmente de muita bajulação. Essa é uma fonte que se renova a cada dia.
Nunca bajule várias pessoas da mesma forma – Se fizer isso e for descoberto, vai desperdiçar todos os elogios. Você parecerá um bobo que puxa o saco dos outros indiscriminadamente.

Conte um segredo – Revele algo íntimo. Isso mostra sua confiança na pessoa e que você a considera compreensiva e discreta.

Nunca seja sincero quando alguém pede sua opinião – Elas estão procurando elogios, não a verdade; apoio, não franqueza. Então, qualquer coisa moderadamente negativa é interpretada como uma dura crítica.

Peça conselho – Nós gostamos de quem nos considera uma autoridade.
Não diga ao muito superior que ele é um gênio – Quanto maior é a diferença de status entre você e seu alvo, mais sutil deve ser a bajulação. Caso contrário, pode sugerir pretensão. Seja discreto acima de tudo.

Só o superior pode dizer ao inferior que ele é bom – A bajulação na direção de quem é hierarquicamente inferior é sempre mais fácil. Parece mais natural.

Puxe o saco pelas costas – Tem a grande virtude de não expô-lo tanto quanto a bajulação direta. É uma maneira de terceirizar o elogio. Alguém diz: “Fulano disse que você é brilhante!”. É muito eficiente.

Peça um pequeno favor – Estudos indicam que gostamos mais das pessoas para as quais fazemos favores do que das quais nos fazem favores. O pedido jamais pode ser simultâneo ao elogio. Deve ocorrer só depois de elogios já maturados.

J.R. Sant´Ana

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